Em reacção à aprovação da Lei francesa, o Ministro da Cultura proferiu declarações surpreendentes, dizendo que fazer downloads de música e filmes na internet é como apanhar uma nota de banco caída no chão e afirmando ser contra qualquer solução deste tipo, por considerar censório o seu teor.
A Lei francesa prevê uma solução de resposta gradual à pirataria na internet, realidade que ameaça e compromete a diversidade cultural e informativa, e ameaça a subsistência dos criadores e das indústrias culturais. Esta solução passa por efectuar dois avisos aos internautas que fazem downloads ilegais, alertando-os para a ilegalidade do seu comportamento e incitando à cessação da prática deste crime. Caso o internauta insista na prática reiterada deste crime, então verá suspenso por uma autoridade administrativa o fornecimento de serviços de internet, podendo recorrer da decisão para os tribunais.
Em votação da passada semana, o Parlamento Europeu não aprovou uma proposta que impunha que este tipo de sanções apenas possa ser aplicado após uma decisão judicial. Isto significa que o Parlamento Europeu não exclui a possibilidade de aprovar a nível europeu uma solução similar à francesa.
O MAPiNET condena esta reacção, que revela enorme desconhecimento por parte do Ministro. Com esta reacção, José António Pinto Ribeiro não só demonstra ignorância, como revela um total desrespeito pelo Estado de Direito e pelo direito de propriedade que é um dos seus pilares. De facto, os downloads ilegais de música e filmes são efectuados a partir de suportes que são disponibilizados sem autorização dos titulares de direitos das obras, ou seja, dos autores, dos artistas e dos produtores. Apesar de o Sr. Ministro não o ter referido expressamente, esta realidade afecta já também a informação de jornais e revistas e os direitos de difusão da informação, comprometendo num futuro próximo a diversidade informativa como fundamento da democracia.
Os downloads ilegais são efectuados com base numa clara violação do direito de colocação à disposição, que é um direito exclusivo dos titulares de direitos, conforme a previsão do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, que o Sr. Ministro tem obrigação de conhecer.
É lamentável que o titular da pasta da Cultura profira declarações que põem em causa os criadores e as indústrias culturais, e que podem ser entendidas como um branqueamento e até uma instigação aos comportamentos criminosos.
É lamentável que o Ministro confunda censura com combate ao crime e que, apesar de ser titular da pasta da Cultura, defenda soluções que são claramente comprometedoras da diversidade cultural e da criação.
As notas caídas no chão poderão ser consideradas objectos perdidos, mas os filmes e as músicas disponibilizados ilegalmente na internet e que são objecto de download têm donos bem identificados, que foram roubados, aparentemente com o apoio do Ministro que devia protegê-los: estará o Ministro a equacionar a sua continuidade na titularidade desta pasta?
O Ministro assume assim a defesa de comportamentos criminosos contra os criadores e todos os que vivem das indústrias culturais. Senhor Ministro, se ainda não percebeu o que está em causa, teremos todo o gosto em explicar-lhe!